
Olá, queridos leitores!
Estou voltando com a terceira parte da série de artigos sobre games e educação. Conforme eu prometi, eis a entrevista com o prof. Wagner Luiz Schmit!
Sobre o entrevistado: o prof. Wagner é nascido em São Paulo – SP e mora em Londrina – PR, é formado em Psicologia e é Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Londrina. Atualmente é professor de Psicologia Educacional e faz pesquisas relacionadas ao RPG.
Confiram
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Eu Gosto de Jogar – Com que idade você começou a jogar RPG?
Prof. Wagner – Eu não lembro direito, acho que estava na 6 ou 7 série… Com 11 ou 12 anos… Hoje estou com 30. Lembro até hoje que um amigo chegou na escola falando que conheceu um jogo “que parece videogame mas dá para fazer o que quiser”. Fui conhecer na falida Forbidden Planet do Shopping Pompéia em São Paulo. Meu primeiro jogo foi uma partida de D&D, meu segundo foi GURPS Space e foi paixão a primeira rolagem hhehe… Sinto falta dessa época, chegava na loja e tinha várias mesas de vários sistemas e era só perguntar se podia jogar. Hoje em dia só se vê D&D e WoD nos eventos.
EGJ – Como é, para você, a relação entre games e educação?
Prof. Wagner - Vivemos numa sociedade cada vez mais permeada de jogos, crianças pequenas aprendem principalmente com jogos entre si e com adultos, e outros filhotes de animais também brincam para aprender. Por que nossa educação deve ser chata, desinteressante, sem sentido? Eu não acho que toda educação deve ser lúdica, baseada em jogos e etc. Mas os professores não podem ignorar a cultura de jogos de seus estudantes e o uso de jogos na educação nos mostram que uma educação diferente é possível.
EGJ – Em quais aspectos o RPG e os games podem ajudar na formação de um estudante?
Prof. Wagner - Depende muito do jogo, do contexto educacional, do estudante, etc. Quem promove o desenvolvimento planejado do estudante é o professor. Os jogos por si podem promover o desenvolvimento de algumas habilidades e conhecimentos, como coordenação motora, pensamento estratégico, etc. Mas cabe ao professor, ao planejar sua intervenção pedagógica, ou seja, analisar os jogos com suas características e como eles podem ajudá-lo a colocar o estudante em situações que promovam o desenvolvimento desejado por ele e pelo estudante. Eu usei o RPG de mesa com sucesso para desenvolver raciocínio abstrato, leitura, escrita e trabalho em grupo, mas eu usei de uma forma específica num contexto específico e dificilmente conseguiria repetir o mesmo processo. Professores diferentes e estudantes diferentes vão usar os jogos de maneira diferente em escolas diferentes. Não existe receita de bolo para o desenvolvimento humano, ele é um fenômeno complexo e deve ser tratado como tal.
Outra questão é que, apesar de existirem dezenas de estudos apontando as potencialidades do RPG, ainda não temos um estudo aprofundado sobre o impacto do RPG no desenvolvimento em ambiente escolar. Esse provavelmente vai ser o tema do meu doutorado e de uma pesquisa que vou realizar ano que vem.
EGJ – Você acha possível ensinar de forma lúdica, usando, em especial, o RPG para isso?
Prof. Wagner - Acho possível, já foi feito em vários lugares no Brasil em sala de aula, fora da sala, no contra-turno, e etc. Na Europa tem uma escola que funciona na base do RPG. Então é possível sim, mas depende muito do contexto. Quando o RPG é “empurrado goela abaixo” de professores e alunos, além de não funcionar gera uma aversão ao jogo. Por isso geralmente meus artigos são de crítica ao uso do RPG, pois para que isso ocorra o professor deve ter claro seus objetivos pedagógicos, ter um embasamento teórico consistente e compreender que não se pode fazer um jogo “obrigatório”. Além disso é necessário que o professor conheça muito bem o jogo que vai usar, e se é o RPG deve conhecer bem o RPG e não apenas ter lido sobre ele. Se vou ensinar usando um computador, tenho que eu mesmo saber usá-lo, suas características, potenciais e limites. O mesmo ocorre com o RPG.
EGJ – E o LARP (Live Action Role Play)? Qual a relação que ele poderia ter com o ensino?
Prof. Wagner - Para mim larp é um tipo de RPG, geralmente chamamos o RPG de mesa só de “RPG”. No exemplo que eu citei da escola Européia, eles usam principalmente o larp. Na minha opinião, o larp é o de mais fácil aplicação numa sala de aula por comportar um número maior de alunos e possibilitar uma variedade maior de formas de interação entre os jogadores, mas alguns outros pesquisadores de RPG discordam de mim. Mas o que eu disse anteriormente sobre o RPG de mesa vale para o larp também.
EGJ – Você conhece alguns exemplos de educadores/escolas que atualmente usam o RPG em seus programas de ensino?
Prof. Wagner - Muitos. E existem mais do que imaginamos. Uma amiga minha jogadora de RPG usa uma versão adaptada do RPG para ensino de arte. Outro dia fui dar uma palestra e uma mãe perguntou se eu podia passar algumas referências de jogos porque o professor dele usou RPG na sala e ele se interessou. E isso que eu moro numa cidade do interior do Paraná. Mas comparados com a educação em geral ainda são aplicações pontuais e dispersas. O MEC já elaborou alguns materiais com RPG e até colocou o RPG como um tema de algumas aulas no PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação). Em Curitiba tem um projeto com alunos de licenciatura em Biologia utilizando o RPG e um curso de extensão sobre uso do RPG na Educação. Temos mais de 50 dissertações e teses sobre RPG no Brasil com vários relatos de uso prático do RPG.
EGJ – Para você, qual é o maior impedimento para o uso do RPG na educação?
Prof. Wagner - Falta de comprometimento do estado, professores, pais e alunos com uma educação de verdade. Infelizmente a maioria dos professores finge que ensina e os alunos fingem que aprendem. Não estou inventando isso, já trabalhei em escolas e vi isso de perto. Nosso modelo de educação é do século XVII ou anterior. Nem professores nem alunos conseguem dar um sentido para a escola e a educação, assim o professor se torna um mero operário assalariado e o estudante vai por causa dos amigos, diploma e obrigação por lei. Realmente olhamos para os estudantes como seres humanos? Ouvimos deles o que é interessante que eles aprendam para ser aplicado na realidade deles? O governo enxerga a educação como prioridade (afinal é a formação da próxima geração de humanos)? A sociedade reconhece a importância do professor?
Além disso temos a ignorância e o preconceito com o RPG. A escola, medieval, tenta, medievalmente, erguer muralhas físicas, culturais e psicológicas contra uma sociedade que ela não reconhece. Tenta se manter um local burguês, branco, cristão e com uma moralidade vitoriana. Isso e o fato de precisarmos de bodes expiatórios para toda patologia (violência e afins) gerada pelo nosso sistêma sócio-ecônomico transformam culturas “estranhas” como o RPG como alvos perfeitos de ataques e válvulas de escape para o pânico moral. É mais fácil eu falar que o aluno não aprende porque passa o dia jogando, do que mudar a educação de tal forma que o estudante queira passar o dia estudando.
Sobre as críticas e os ataques aos RPG já existem pesquisas sérias sobre o assunto, mas essas coisas não saem na mídia.
EGJ – Deixe um recado para os leitores do Eu Gosto de Jogar!
Prof. Wagner - Quando alguém começar a críticar os jogos, convide a pessoa para jogar. Este é o melhor argumento!
Agradeço imensamente ao prof. Wagner pelo tempo por ele cedido para responder as minhas perguntas! A quarta e última parte da nossa série de artigos sobre games e educação será mais uma entrevista! Aguardem
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