RSS

A Jornada do Herói – Parte 1

06 out

Talvez muitos de vocês já tenham ouvido o escritor Eduardo Spohr, autor de Batalha do Apocalipse e do mais recente Filhos do Éden, citar a Jornada do Herói em alguns nerdcasts. À mim, o assunto foi apresentado durante a versão Curitibana do Encontro Internacional de RPG em 2005.

A tese desenvolvida por Joseph Campbell em seu livro “O Herói de Mil Faces” trabalha a noção de que as histórias (todas elas) estão ligadas por um fio condutor comum. Assim, desde os mitos antigos, passando pelas fábulas e pelos contos de fadas até os mais recentes estouros de bilheteria do cinema, a humanidade vem contando e recontando as mesmas histórias.

Esta “história oculta” dentro de outros histórias é chamada por Campbell de A Jornada do Herói Mitológico, e tem servido de base e orientação para profissionais que estudam e se dedicam às diversas formas de contar histórias, desde psicólogos, escritores, contadores de histórias, dramaturgos, roteiristas e críticos de cinema.

Ainda segundo Campbell, seria possível estruturar qualquer história a partir do roteiro básico da “Jornada do Herói”, e vice-versa, ou seja, é possível “desmontar” as histórias, identificando nelas os passos que constituem a “Jornada”.

Enfim a tese é por demais interessante, tanto que gerou outros estudos, como o publicado por Cristopher Vogler no livro “A jornada do Escritor” onde esse adequa a jornada às narrativas contemporâneas.

Para nós, RPGistas, a estrutura desenvolvida por Campbell, e adaptada à narrativa contemporânia por Vogler, serve de ferramenta para criação de histórias e aventuras. Nos últimos anos tenho utilizado bastante esse roteiro para criar minhas aventuras e os resultados têm sido muito bons.

Hoje começo um série de quatro posts onde vou apresentar todas as etapas da Jornada do Herói e como usá-las na criação de uma aventura de RPG. Todo o texto, e seus exemplos, foi escrito pelo Luiz Eduardo Ricón e apresentado durante o II Sipósio de RPG & Educação, eu apenas tomei a liberdade de acrescentar alguns comentários que achei pertinentes.

1. O Mundo Comum

A maioria das histórias leva o personagem principal para fora do seu mundo comum, cotidiano, em direção a um mundo especial, novo e estranho. A idéia de peixe fora d’água gerou muitas e muitas histórias de filmes: Guerra nas Estrelas, O Mágico de Oz, Senhor dos Anéis.

Antes de mostrar alguém fora do seu ambiente costumeiro, obviamente deve-se mostrá-lo em seu mundo comum, para traçar um contraste nítido entre esse universo ordinário e o mundo especial no qual adentrará.

Em Guerra nas Estrelas, primeiramente vemos o herói Luke Skywalker em sua vidinha na Fazenda cheio de tédio antes de embarcar na aventura contra o Império galático.

No filme Thelma & Louise, primeiro conhecemos duas personagens em suas vidas cotidianas. Uma é garçonete e a outra é dona de casa. Somente depois dessa apresentação é que embarcamos no mundo especial, no qual elas serão fugitivas da polícia.

2. Chamado à Aventura

Ao herói é apresentado um chamado à aventura, um desafio de grande risco. Uma vez apresentado esse chamado, o herói não pode mais permanecer indefinidamente em seu mundo comum. A terra pode estar morrendo, como nas histórias do Rei Arthur em busca do Santo Graal. Em Guerra nas Estrelas, o chamado acontece quando Luke vê, ao lado de Ben Kenobi, o holograma da Princesa Leia pedindo ajuda.

Nas comédias romanticas, o chamado à aventura pode ser o primeiro encontro com alguém especial, normalmente no cinema americano, uma pessoa irritante que o protagonista passa a perseguir e enfrentar.

O chamado à aventura estabelece o objetivo do jogo e deixa claro qual o objetivo do herói. Será que Luke conseguirá salvar a Princesa Léia? Será que Thelma & Louise conseguirão escapar impunes do crime que cometeram?

3. Recusa do Chamado

É normal qualquer herói sentir medo após ser chamado à aventura. Luke recusa-se a viajar para Alderan e a ajudar a Princesa Léia. Nas comédias romanticas o herói pode relutar em deixar-se envolver.

Quando o herói recusa é necessário que em algum momento surja alguma influência para que ele vença esse medo. Pode ser um encorajamento do mentor, uma nova mudança na ordem natural das coisas. Quanto maior for o medo do herói entregrar-se à aventura maior será o vínculo emocional do espectador.

Quando Luke recusa o chamado de Ben Kenobi e volta para casa, vê seus tios mortos pelas tropas do império. Com isso Luke não hesita mais e determina-se a embarcar na aventura com Ben. A recusa do chamado acontece no início da história? NÃO. Lembre-se de que o mapa da jornada deve ser moldado ao propósito da história. Em O Retorno de Jedi o mocinho Luke recusa o chamado para enfrentar Vader desde os 45 minutos de filme até mais ou menos os 75 minutos.

4. Encontro com o Mentor

Nesse ponto da história, o herói já deve ter encontrado um mentor. A relação entre mentro e herói é um dos temas mais comuns na mitologia. Representa a vínculo entre pai e filho, mestre e discípulo, Deus e o ser humano. Um dos mais famosos mentores é o Mago Merlin da história do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Nos filmes, o mentor pode aprecer como um sábio Jedi (Guerra nas Estrelas), um sarento exigente (A Força do Destino), ou mesmo o código de honra e moral do herói (os personagens de John Wayne).

A função do mentor é preparar o herói para enfrentar o desconhecido quando ele atravessar o primeiro limiar. Ben Kenobi instrui Luke nos caminhos da Força. O mentor pode ensinar ou até mesmo dar “presentes”, como o agente Q nos filmes de James Bond.

O mentor só pode ir até certo ponto com o herói, a partir do qual esse deve prosseguir sozinho ao encontro do desconhecido. Para tanto, algumas vezes o mentor pode dar um “empurrãozinho” ou um belo chute na bunda. É importante frisar: um herói pode ter vários mentores.

Espero que tenham gostado desse início, na semana que vem continuarei com mais quatro etapas dessa longa e transformadora jornada.

Anúncios
 
13 Comentários

Publicado por em 06/10/2011 em Geral, Literatura, RPG

 

Tags: , , ,

13 Respostas para “A Jornada do Herói – Parte 1

  1. Alexandre Sarmento

    06/10/2011 at 10:21 AM

    O monomito é a base de grande parte de nossa tradição literária.
    E por que não trazer isso para o RPG?
    Excelente texto, Felipe.

    [Jabá] No Guia do Cenário de Campanha de Ohmtar, inclusive, explicamos a evolução dos heróis e sua jornada rumo à “Imortalidade”, assim como trazemos sugestões de estrutura de campanhas, à luz da teoria de Campbell. [/Jabá]

    Abraços!

    Alexandre Sarmento
    Autor e Primeiros Mestre de Ohmtar
    http://www.ohmtar.com.br

     
  2. Marcus Brisolla

    06/10/2011 at 10:24 AM

    Eu tava lá Caco… também vi a palestra. Você lembra que criamos uma história e o vilão era Gralak, o decomposto? hahahha bons tempos de Internacional em Curitiba!

     
  3. Rafael (Draugor)

    06/10/2011 at 1:05 PM

    Parabéns Caco. Alto nível.

     
  4. Lauraniz Reis (@Lauraniz_)

    06/10/2011 at 1:07 PM

    Adorei ^^
    fiquei viajando nas historias em que criei e fiz isso sem saber O_O
    Mas agora acredito que farei com mais maestria \o

    Vlw! quero ver a continuação \o

     
    • feliperecka

      06/10/2011 at 1:14 PM

      Por isso gostei tanto, essas histórias e o arquétipo do herói são tão fortes que acabamos recriando-as sem perceber.

      Obrigado pelo comentário e volte mesmo 😉

       
  5. Anderson Souza

    06/10/2011 at 1:08 PM

    A saga do herói! Verdadeiramente indispensável…

     
  6. gilsonrocha

    14/10/2011 at 2:15 PM

    Essa tese aborda o assunto, mas só tive acesso ao resumo.

    SERBENA, Carlos Augusto. O mito do herói nos jogos de representação (RPG). UFSC: 2006. (doutorado)

     
    • feliperecka

      14/10/2011 at 3:22 PM

      Oi Gilson, vou ver se entro em contato com o autor, obrigado pela dica 🙂

       

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: