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A relação entre games e educação no mundo moderno – Parte 1

28 out

Olá, leitores do Eu Gosto de Jogar!

Quero iniciar, com esse post, uma discussão que, para quem não está envolvido na área de educação ou ainda não parou para pensar no assunto, pode parecer bobagem, mas que vem ganhando uma força imensa nos últimos tempos: games + educação! E vou iniciar situando meus leitores: eu sou graduanda em Licenciatura em Física e faço parte do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), custeado pela CAPES. Eu pretendo fazer mestrado e doutorado no que os físicos chamam de “Física Dura” (ciência), mas no momento desenvolvo pesquisa na área de educação, mais precisamente, pesquisa na relação que as Tecnologias de Informação e Comunicação tem com o ensino de Física.

Nas muitas conversas e palestras que tive com professores da área, o que me chamou a atenção é o fato de muitos professores terem a consciência de que tecnologia tem que estar presente dentro de sala de aula, mas são poucos os que conseguem usar racionalmente alguma tecnologia (quando falo de tecnologia, me refiro desde à TV pendrive, que existe nas escolas públicas do Paraná, até um computador e um data show). Diante disso, são poucos, também, os professores que conseguem ver como um simples jogo pode ajudar seus alunos a desenvolverem habilidades e fixarem o conteúdo dado mais significativamente.

O que ocorre, porém, é que os alunos estão anos-luz à frente de seus professores (falando de um modo geral): muitos tem computadores em casa e alguns fazem a própria manutenção (os mais ousados aprendem programação por conta própria), sabem mexer em celulares melhor que os pais (muitas vezes acabam ensinando os pais a mexer), jogam videogame nas horas vagas, e quando chegam na escola, não são desafiadas, o professor passa o conteúdo praticamente mastigado, e o cara vai à escola para passar de ano ou para fazer um vestibular! Só para citar um exemplo da diferença que um jogo de videogame pode fazer numa pessoa que está em fase de aprendizagem, vejam esse vídeo:

Para quem ainda não conhece esse vídeo, é uma Raid Leader do World of Warcraft de APENAS 5 anos. Para nós que somos adultos e acostumados a jogar RPG, algumas coisas ali são extremamente triviais. Mas para uma pequena garotinha de 5 anos, não. Começa por ela ser uma líder: para ser Raid Leader, o cara tem que ser ousado e entender de estratégia de luta. Nem todos os jogadores de RPG servem para ser bons líderes. Uma criança que tem a capacidade de estabelecer uma estratégia de luta num jogo tão complexo como World of Warcraft é uma criança que vai achar a escola chata. E WoW é um jogo que engloba elementos tão diversos que tanto a garotinha de 5 anos quanto o garotão de 35 estão ganhando cognitiva e intelectualmente enquanto jogam.

Não somente os jogos de videogame podem ajudar um educando no processo de ensino-aprendizagem: board games, como Banco Imobiliário e Monopoly ajudam com noções de matemática, economia e planejamento financeiro, além de dar as primeiras noções de investimento; War pode auxiliar com o aprimoramento da capacidade de estratégia do indivíduo, que muitas vezes envolve raciocínio lógico; RPGs são excelentes aliados no ensino de história (o professor precisa ter a sensibilidade de transpor a didática por trás da fantasia do RPG), e tem a vantagem de serem flexíveis: qualquer um, com um pouco de conhecimento e boa vontade pode criar um jogo de RPG que tenha qualquer direcionamento, e o RPG, também, aguça a capacidade de interpretação, que é essencial nesse tipo de jogo; a quantidade de jogos de videogame que são excelentes aliados do ensino é incontável: nos jogos da série Age of Empires, além do conteúdo histórico, é possível abordar conceitos físicos (o lançamento de projéteis nas catapultas e trebuchets, por exemplo), trabalhar questões sociais (o papel de cada indivíduo dentro do Age of Empires em cada civilização); Fallout pode ajudar a mostrar os possíveis riscos da energia nuclear; um jogo de corrida aborda diversos conceitos trabalhados na mecânica clássica (newtoniana); Where in The World is Carmen Sandiego (jogo antiquíssimo, por sinal) ensina geografia. O que o professor necessita é ter sensibilidade para extrair o conteúdo ensinável do jogo escolhido, e fazer um planejamento prévio e minucioso (já que a aula não será meramente o “quadro-e-giz” habitual) da aula que ele pretende dar: estabelecer os objetivos da aula, a metodologia, a base teórica, a avaliação e ter plena consciência do que ele está transmitindo aos alunos. A racionalização do uso de uma tecnologia e de um game em sala de aula é o elemento crucial para um processo de ensino-aprendizagem consciente e completo, e o simples fato de saber usar um computador ou de saber como se joga um jogo não torna quem usa um usuário racional.

A parte 2 desse artigo contará com uma conversa com um professor do Departamento de Física da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, prof. Dr. Awdry Feisser Miquelin, que nos contará um pouco sobre como o professor pode se tornar um usuário racional de tecnologias, como usar dos games para melhorar o processo de ensino-aprendizagem e as influências que isso tem para o aprendizado dos educandos.

P.S.: Quero deixar os créditos pelo meu conhecimento na área e tudo que aprendi sobre games e educação até o momento aos professores Awdry Feisser Miquelin e Wagner Luiz Schmit, que são dois feras e são, em especial o prof. Awdry, minha inspiração!

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12 Comentários

Publicado por em 28/10/2011 em Geral

 

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12 Respostas para “A relação entre games e educação no mundo moderno – Parte 1

  1. Gilson • RPG • Educação

    28/10/2011 at 10:58 AM

    Já li alguns resumos na CAPES sobre jogos eletrônicos e educação quando buscava RPG e educação, que caminha entre todas as disciplinas segundo mestrados e doutorados.

    O vídeo pareceu falso, um pouco teatralizado, mas posso estar errado.

    Excelente postagem!

    Gilson

     
  2. Rotieh

    28/10/2011 at 12:21 PM

    Ótimo texto, estou de total acordo.

    Sempre estive na busca de inserir o RPG em sala de aula, sou professor de Ciências Biológicas e posso dizer que gera sim muito resultado.

    Sempre estive acompanhando os projetos e conquistas de Matheus Vieira, que é um dos maiores nomes nesta luta!

    Mas infelizmente todas as vezes que tentei inserir o RPG em parceria com a história da biologia (conhecendo grandes nomes do passado e da atualidade e suas respectivas contribuições para a ciência), tive que fazê-lo extra-classe.

    A escola não aceitou a prática, que não condizia com os padrões instituidos.

    Tendo que executar as sessões em horário contrário às aulas, fiquei completamente sem tempo para as atividades burocráticas da escola, o que infelizmente me fez desistir de mestrar durante o período letivo, mestrando apenas para alguns alunos selecionados aos feriados e nas férias escolares.

    O resultado fora ótimo, se perguntar para qualquer um quem foi Alexander Fleming terá uma resposta animada na ponta da língua! Sem forçar, sem decorebas, só por diversão!

    RPG na educação já!

    PS.: atualmente, infelizmente, não lessiono mais, nem aplico o RPG para alunos, só a prática exporádica entre amigos mesmo. Uma pena =/

    Abraços!

     
  3. Rotieh

    28/10/2011 at 12:23 PM

    Ótimo texto, estou de total acordo.

    Sempre estive na busca de inserir o RPG em sala de aula, sou professor de Ciências Biológicas e posso dizer que gera sim muito resultado.

    Sempre estive acompanhando os projetos e conquistas de Matheus Vieira, que é um dos maiores nomes nesta luta!

    Mas infelizmente todas as vezes que tentei inserir o RPG em parceria com a história da biologia (conhecendo grandes nomes do passado e da atualidade e suas respectivas contribuições para a ciência), tive que fazê-lo extra-classe.

    A escola não aceitou a prática, que não condizia com os padrões instituidos.

    Tendo que executar as sessões em horário contrário às aulas, fiquei completamente sem tempo para as atividades burocráticas da escola, o que infelizmente me fez desistir de mestrar durante o período letivo, mestrando apenas para alguns alunos selecionados aos feriados e nas férias escolares.

    O resultado fora ótimo, se perguntar para qualquer um quem foi Alexander Fleming terá uma resposta animada na ponta da língua! Sem forçar, sem decorebas, só por diversão!

    RPG na educação já!

    PS.: atualmente, infelizmente, não lessiono mais, nem aplico o RPG para alunos, só a prática exporádica entre amigos mesmo. Uma pena =/

    Abraços!

    Rotieh [Dados Limpos]

     
  4. Gilson • RPG • Educação

    28/10/2011 at 12:48 PM

    Rotieh,

    No World RPG Fest, alguém comentou o trabalho de um professor de biologia com uma forma fantástica de aplicar o RPG: os alunos-jogadores eram organismos do corpo!

    Gilson

     
  5. Luíza Sabchuk - Ayanami

    28/10/2011 at 1:25 PM

    Gilson, eu também achei à princípio que o video era fake, mas é uma homenagem do pessoal de um server de WoW à pequena Raid Leader :)!

    O RPG em especial é uma excelente ferramenta para o ensino de História e Filosofia da Ciência. Muitos estudos tem sidos feitos nessa área, mostrando o ganho que o aprendizado de ciências tem quando o ensino de História e Filosofia da Ciência é atrelado ao de ciências: o aluno pode perceber, por exemplo, que a ciência, como produção humana, é suscetível a falhas e que não “nasce pronta”, são necessários anos para elaborar uma teoria bem embasada.

    O que o Rotieh relatou é uma das maiores dificuldades quando se trata de aplicar práticas educacionais com jogos: a direção da escola. Em geral os alunos dão um excelente feed back sobre o assunto, eles ficam animados com atividades que fogem ao quadro-e-giz, e alguns professores se mostram interessados em saber como é a dinâmica dessas atividades.

     
  6. Rogério

    28/10/2011 at 2:41 PM

    Não sou professor, mas como RPGista posso prestar qualquer auxílio na criação de aventuras e para encontrar sistemas que se encaixem na proposta!

    “Existe o professor e o professor do juntos” – plagiando slogans por aee
    OUHDUIAdhiuaHDiuahduai

    RPG e Educação deveriam sempre caminhar juntos!

    Se eu tivesse conhecido o RPG antes, hoje eu teria lido 4x mais livros que tenho na minha estante;

    Ótimo post, muito bom texto!

    Parabéns!

    Lestath [Dados Limpos]

     
    • gilsonrocha

      28/10/2011 at 7:51 PM

      Rogério, acredito que uma das barreiras para os professores que querem aplicar o RPG com seus alunos (professores que não são jogadores de RPG), seja a falta de aventuras. Se não me falha a memória, parece que havia um movimento neste sentido. Enfim, vamos iniciar um?

      Fernanda, muito bacana isso! E uma pena da parte de seus colegas. Aqui em Belém professores com décadas de sala de aula acharam extremamente interessante a ideia toda.

      Gilson

       
  7. Fernanda Ribeiro

    28/10/2011 at 6:30 PM

    Nas teorias de Piaget sobre o desenvolvimento da criança os jogos são altamente defendidos, meus colegas professores não costumam ler os originais e sim comentários a respeito das obras que são tidas como referenciais em pedagogia.

    Na especialização que faço em linguagens da arte tive uma matéria voltada exclusivamente para tecnologia e games, sintetiza muito do que foi dito aqui. Nas minhas práticas educativas sempre penso em metodologias lúdicas para trabalhar o ensino-aprendizagem de crianças e adolescentes, meus colegas não conseguem ver tais métodos com “bons olhos”.

    Infelizmente o que entristece é a RESISTÊNCIA dos professores em se envolver com novas tecnologias e revisitar clássicos da educação para desenvoler metódos que tragam o aluno para a aula.

     
    • cacorpg

      29/10/2011 at 12:24 PM

      Oi Fer

      que coisa boa ver você por aqui seja bem vinda sempre (todos são mas Fernanda é amiga de longa data), a intenção é mesmo mudar os paradigmas da velha Educação e a mudança acaba vindo com a substituição da velha escola, por pessoas uma proposta mais atraente pro aluno! Tenho ouvido muitas coisas boas em relação a isso pelos relatos de aplicadores de RPG e ou jogos em todos os níveis da educação! Meu filhote com apenhas três anos é incentivado na escola a jogar em casa uno e outros jogos de fácil assimilação! tempos de mudança!

       
  8. Jefferson Nascimento

    28/06/2012 at 6:43 PM

    Adorei a matéria e os comentários tecidos, vou pesquisar mais sobre o uso de jogos, fui a bibliografia indicada no comment do Gilson para olohar mais. Estou me formando em Licenciatura em Biologia, não sei se vou seguir, mas sei que gosto de criar jogos, tanto que vou fazer um jogo de tabuleiro pra meu trabalho final de facul.

     

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