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A trilogia do Sprawl e o nascimento do cyberpunk

13 jan

Olá pessoal!

hoje vou falar um pouco sobre um dos temas favoritos dentro do RPG: o Cyberpunk! Ainda que você não tenha jogado títulos como Cyberpunk 2020, os recentes Interface ZeroRemember Tomorrow, ou mesmo a mistura entre cyberpunk e fantasia Shadowrun  (que pasmem já tem mais de 20 anos), com certeza você já teve algum contato com o tema. A cultura pop esta repleta de referências a esse “subgênero” da ficção científica: livros como Neuromancer, filmes como Matrix, animes como Ghost in the Shell ou mangas como Gunnm.

O termo “cyberpunk” foi popularizado como tipo de literatura por Gardner Dozois, ainda que tenha sido criado pelo escritor Bruce Bethke em 1980 em um conto chamado “Cyberpunk” (dã) publicado na edição de novembro de 1983 da revista estadunidense Amazing Science Fiction Stories. Contudo, o escritor que definiu o gênero foi Willian Gibson, segundo Lawrence Person “os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros distópicos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano.”

Como o assunto é bastante extenso resolvi dedicar o post de hoje às origens do cyberpunk, mais especificamente sobre a “Trilogia do Sprawl” do escritor Willian Gibson. Trilogia composta pelos livros: Neuromancer (1984), Count Zero (1986)  e Monalisa Overdrive (1988). Todos eles foram republicados no Brasil em 2008 pela editora Aleph, aliás, com um belo trabalho de tradução.

Willian Ford Gibson é um escritor nascido em 1948 nos EUA, por vezes chamado de “profeta noir” do cyberpunk. Gibson cunhou o termo “ciberespaço” em seu conto “Burning Chrome” e posteriormente popularizou o conceito em seu romance de estréia, Neuromancer. Prevendo o ciberespaço, Gibson criou uma iconografia para a era da informação antes da onipresença da internet na década de 1990. Também é creditado a ele a previsão do surgimento da “televisão de realidade” e de estabelecer as bases conceituais para o rápido crescimento de ambientes virtuais como jogos e internet.

O primeiro livro da trilogia entitula-se Neuromancer e conta a história de Case, um cowboy (hacker) que foi impossibilitado de exercer sua profissão, graças a um erro que cometeu ao tentar roubar seus patrões. Eles então envenenaram Case com uma microtoxina, que danificou seu sistema neural e o impossibilitou de se conectar à Matrix (sim, “everything is a remix“). Case então procura as clínicas clandestinas de medicina de Chiba City, onde gasta todo seu dinheiro com exames, sem conseguir encontrar uma cura. Drogado, sem dinheiro, desempregado – é nessa condição que Molly Millions o encontra e a trama se inicia.

Em Count Zero, a trama se passa oito anos após Neuromancer e é do tipo “entrançada”, linhas diferentes acompanham diversos personagens que detêm o ponto de vista narrativo. Essas linhas caminham de maneira independente e só se cruzam apenas perto do fim do livro. No início temos o mercenário Turner em convalescença no México, após ter sido feito em pedaços em Nova Delhi. Ele foi reconstituído a partir de partes previamente clonadas. No México, conhece Allison, uma californiana em férias, com quem ele desenvolve um relacionamento diferente de todos os outros em sua experiência de vida, limitada aos guetos do Sprawl e às operações de campo. Turner é um especialista em proteger e extrair altos executivos de mega-multinacionais, às vezes resgatando-os do regime de servidão em que trabalham – e levando-os a uma outra empresa, onde, supõe-se, sua sorte não será muito melhor. Turner é logo encaminhado para uma nova missão: garantir a deserção bem-sucedida de Christopher Mitchell, pesquisador da Maas Biolabs. Turner irá comandar uma equipe montada por Conroy, um antigo associado, com o qual tem um relacionamento desconfortável e atritoso. A tentativa de resgatar Mitchell acaba colocando, nas mãos de Turner, Angie, filha de Mitchell e portadora de um segredo revolucionário. Numa outra linha, Marly Krushkhova, ex-proprietária de uma galeria de arte em Paris, se apresenta em um cenário virtual para uma entrevista com o magnata Josef Virek. O trilionário a contrata para localizar uma misteriosa obra de arte, sob a forma de uma caixa com um arranjo incomum de objetos, em seu interior. Enfim, a terceira linha narrativa acompanha o hacker adolescente Bobby Newmark, o “Count Zero”, que sobrevive ao mortal ataque de uma inteligência artificial, depois de testar, desavisadamente, um programa quebra-gelo – feito para furar o “firewall” das grandes empresas e suas IAs domésticas. Ao escapar com vida, ele desperta a curiosidade de um grupo de “pais-de-santo cibernéticos”, emigrantes jamaicanos metidos no Sprawl, onde negociam serviços no submundo.

Fechando a trilogia temos “Monalisa Overdrive”, um romance centrado em personagens femininas. Tal qual Count Zero apresenta várias tramas que se unem ao final do livro. As personagens são Angie Mitchell, que conhecemos no livro anterior, e que agora é a maior celebridade do mundo futuro criado por Gibson; Mona, uma jovem prostituta que faz parte de uma tramóia para seqüestrar Angie; Kumiko, a filha adolescente de um chefão da Yakuza, a máfia japonesa, enviada a Londres para sair da linha de frente de uma guerra de gangues; e enfim, “Sally Shears”, que é a mesma Molly Millions de Neuromancer, uma de suas personagens principais. O que Gibson fez com a Trilogia do Sprawl é semelhante ao que Cormac McCarthy faria na Trilogia Fronteiras – não há conexão direta entre o primeiro e o segundo volumes, mas o terceiro recupera parte do elenco de personagens dos dois anteriores, e algumas das suas situações. O livro é dedicado a Fran Gibson, irmã do autor, que claramente desejou valorizar a sua investigação do feminino. Bobby Newmark, o “Count Zero” do romance anterior, também aparece, mas de maneira bastante passiva, já que se encontra numa espécie de coma induzido, enquanto explora o ciberespaço através de um superconsole de hacker chamado “Aleph”. Seu objetivo é proteger Angie.

De maneira geral, o texto de Gibson é muito corrido, veloz e atropelado. Com frequência a cena é descrita de forma confusa, sem uma descrição do todo, mas das partes que o autor julga serem as principais. Tal característica exige atenção do leitor pois, por vezes, a visualização é difícil. De início é custoso se acostumar com o rítimo da narrativa, mas com o tempo, habitua-se. A trilogia do Sprawl apresenta um cenário é riquíssimo e profundo, os personagens são carismáticos. Cada um carrega em si um conjunto de idéias que representa esse mundo futurista. A individualidade, os valores, a atitude. Para amantes da ficção cientifica, é uma leitura indispensável.

Esse post foi escrito ao som de vários artistas, destaco a música Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) da banda Arcade Fire, incluenciada pela  obra de William Gibson e pertencente ao álbum The Suburbs. Álbum este muito bom para colocar de trilha sonora em uma mesa com temática cyberpunk. Nas palavras David Marchese, em seu review para a revista Spin, o albúm “recorda o miasma distópico das novelas de Willian Gibson”. 

Se você curtiu, existe uma versão interativa do clipe que se torna ainda melhor se você tiver uma webcam. Vale a pena dar uma conferida!

Ufa, parabéns se você chegou até aqui! Espero ter despertado o interesse pela obra de Willian Gibson e pelo gênero cyberpunk, em uma futura oportunidade trarei outras referências legais sobre o tema.

@feliperecka

See you later, elevator…

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11 Comentários

Publicado por em 13/01/2012 em Literatura

 

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11 Respostas para “A trilogia do Sprawl e o nascimento do cyberpunk

  1. Brega Presley

    13/01/2012 at 12:20 PM

    Bom texto, Felipe. Só uma correção (de chato, eu sei): Sterling e os demais criadores do “cyberpunk” preferiam o termo “O Movimento”. E, salvo engano, o conto “Cyberpunk”.

    Há uma introdução ao tema bacaninha no livreto “O Consertador de biciletas” (“Duplo Cyberpunk”) em uma coleção de bolso que comprei na Devir (o “Consertador” é um conto de Sterling, e “Vale-Tudo” é de Roberto de Sousa Causo, uma “tupinipunk” (cyberpunk nacional) interessante.

    Se achar em sebo, dá uma espiada em “Piratasd de Dados, da coleção Zenith. Acho um livro super-valorizado, mas é relevante para quem gosta do tema, e um dos poucos traduzidos no g^nero em português (como eu disse. é só pra ser chato, que teu texto está bem legal e me empolgo com o tema)
    Estou linkando sua postagem no blog da gente do Saia da Masmorra.

    Abraços e parabéns

     
    • feliperecka

      13/01/2012 at 1:11 PM

      Presley, obrigado pelo elogios e muito obrigado pela correção (quando tiver um tempinho vou fazer uma edição no texto). O que mais me empolga aqui no blog são as trocas que acontecem aqui. Eu sempre aprendo e descubro mais e mais sobre os assuntos que me interessam.

      Sou grato também pelo link 😉
      Volte sempre!

       
  2. Bob Nerd

    14/01/2012 at 12:55 PM

    Sou doido pela obra do Willian Gibson, bela postagem! Adorei!

     
  3. herrmiller

    14/06/2012 at 6:26 PM

    Boa, eu lembro de alusões a NEUROMANCER la nos idos do boom rpg aqui, anos 90….
    nunca mais me lembrrei que isto existe, sou um leitor voraz, e independente das minhas preferencias pessoais, eu leio qqer coisa, eu NÃO VOU DEIXAR DE LER estes Gibson SE TEM em portugues !!!!
    e pela que voce disse até o seu estilo de descrição é meio…. cyber punk, hehe

     
  4. herrmiller

    14/06/2012 at 6:27 PM

    e, CLIPÃO !

     
  5. Ape Caesar

    24/01/2014 at 1:25 PM

    Só não concordo com a recomendação cult do Arcade Fire para mesa. Boa banda, mas dá um clima muito juvenil-burguês-que-se-acha-europeu-e-anda-de-xadrez… melhor ouvir rock industrial ou o álbum neuromancer do Billy Idol. Ou porque não, música eletrônica? Dub pesado, dubstep, etc.

     
  6. Maurício Santos

    27/02/2017 at 1:02 PM

    Interessante esse post, acabei por descobrir sobre a trilogia Sprawl de uma forma sem querer, através de uma banda chamada “Count Zero”. Em algumas de suas músicas eles fazem claramente menções ao cyberpunk. Agora é conseguir um tempinho pra conseguir ler essas obras de William Gibson

     

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