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Don’t Rest Your Head RPG – Resenha

21 jun

Você gosta de Matrix (ou gosta do primeiro filme)? E do filme A Origem? Você gosta? Você gosta de realidades paralelas? Gosta de analisar com profundidade o entorpecimento da mente? Aquela área cinzenta entre o racional e irracional? Bem, se sua resposta foi afirmativa à maioria das perguntas acima talvez você queira conferir o intrigante RPG que comentaremos aqui. Falarei do agradavelmente surpreendente Don’t Rest Your Head (ou DRYH, para os fãs).

A mente criativa por trás deste cenário é o grande Fred Hicks, um dos designers do sistema FATE (aquele que usa os FATE points) e também produziu o premiado Dresden Files RPG, já comentado aqui. A beleza deste RPG é como o designer trata a ideia de temas “transcendentais” dentro do seus jogos e consegue apresentar de maneira jogável transmitindo a sensação de um determinado estado. E este RPG é sobre como é a sensação de estar dentro de um sonho. Mas o sonho não é um sonho. É uma luta pela sua identidade e como, em sua interação com o mundo fantástico da Mad City (Cidade Louca), a personagem do jogador pode encontrar respostas de como resolver os problemas do cotidiano que o levaram à esta realidade paralela da primeira vez.

À medida que eu ia lendo o cenário e o sistema não pude deixar de pensar em um filme que discutia  essa relação entre o real e irreal de uma maneira bem eficiente. Eu estou me referindo ao excelente filme-arte Waking Life, que trata de competentemente  (não me refiro à conteúdo “maduro” como a violência gráfica e temas trágicos, mas sim ao imenso fluxo de informação filosófico e poético incutido no filme) a relação entre sonho, realidade, consciência, inconsciência e se existe uma separação real entre as quatro coisas (recomendo obrigatoriamente se você tiver no estado de espírito para a coisa). DRYH é a mesma coisa mas com a pedra de toque de transformar toda essa discussão numa aventura dramática, ágil e interessante. E ao conseguir isso, meus amigos, se faz um ótimo RPG! Vamos ao livro:

O cenário de DRYH é estranho. Você não consegue dormir. Alguma coisa te impede de dormir, talvez seja alguma causa que voce conheça, talvez não, mas você não consegue dormir. E após algum tempo, um coisa acontece. Você transcendeu o sono, o cansaço, a privação e finalmente Acordou. Na verdade, você nunca esteve tão são. E as coisas nunca tão claras. Agora você consegue enxergar as coisas como elas realmente são. Vielas que você nunca viu no seu dia-a-dia, entradas, portas, pessoas… E, eventualmente, você encontra o caminho para a Mad City.

A Mad City é a residência dos Pesadelos, mas existem também pessoas que você não via a muito tempo, ou que desapareceram, misturados aos nativos. E, estes nativos se dividem em duas classes: os “vazios” (pessoas sem personalidade) e os Pesadelos, que muitas vezes passam um longo período indistinguíveis da outra categoria. Eventualmente as personagens dos jogadores vão esbarrar em outros Acordados e, quem sabe, com uma ajuda mútua, alcançar seus objetivos. Aliás, de alguma forma, a causa da insônia que transformou sua personagem em um Acordado o liga à Mad City. Então só tem um jeito de resolver isso. Entrando na Mad City. Mas cuidado. Só porque voce entrou lá não quer dizer que sua vida aqui fora sumiu. Pelo contrário. Elas continuam como sempre estiveram. Só não esqueça disso.

Dentro da Mad City as personagens têm à sua disposição capacidades que os ajudam a lidar com a Mad City e seus perigos. Para isso existem os Talentos de Exaustão e os Talentos de Loucura. Os de Exaustão envolvem a habilidade de extrapolar os limites da capacidade de algo que a personagem já faça, por exemplo, fazer alguem atirar melhor, bater melhor, calcular melhor, falar melhor, seduzir melhor, etc…chegando a dobrar os limites das regras da normalidade (isso lhe parece familiar? hehehehe). Já os talentos de Loucura envolvem habilidades claramente sobrenaturais como teleporte, invulnerabilidade, precognição, telecinese, telepatia, etc… aqui as regras são quebradas. O problema dessas super habilidades é que elas custam espaço para sua resistência à Loucura e à Exaustão e a consequência destes marcadores chegarem ao limite é sua morte ou sua transformação em um Pesadelo então é necessário parcimônia no uso destas habilidades.

O sistema de DRYH é um ponto que eu acho um pouco complicado pois ele não é intuitivo e é extremamente abstrato. E depende de muitos dados e “props” (ao jogador sugere-se 3 dados brancos que representa a Disciplina da personagem,  6 dados negros significando a Exaustão, de 6 a 8 dados vermelhos que representam a Loucura temporária e permanente e um punhado de marcadores, que serão usados como pontos de Esperança; ao mestre se requer de 10 a 15  dados significando o atributo Dor das personagens do mestre, um punhado de marcadores e dois compartimentos, um claro e um escuro, como pratos, tapwares, vasos, etc; todos os dados são d6). O sistema essencialmente é por sucessos (quando rolados 1,2 ou 3). Então essencialmente o que faz o jogo fluir é essa flutuação na parada de dados e nos atributos que regulam Disciplina, Loucura e Exaustão que podem subir ou diminuir de acordo com o que a situação pede.

Outro aspecto notável de DRYH são os antagonistas. São policiais com chaves de corda nas costas.  A perigosa 13ª hora. Cachorros com alfinetes no lugar de cabeças, senhoras belicosas que caçam e inquirem a todos, bazares onde acordos faustianos de toda ordem são praticados, a geografia caótica que beneficia os Pesadelos e faz com que a qualquer hora possam gangues de homens de papel literalmente cair sobre a cabeça dos personagens… todos estes aspectos ajudam a criar e reforçar a atmosfera paranoica e claustrofobia que permeia cada segundo que se passa na Mad City. E não esqueça a Loucura e a Exaustão que pode pedir o seu pagamento a qualquer hora… e talvez a personagem não consiga arcar. Quem mandou querer demais?

Bem vindo à Mad City e posso dizer: recomendo! Só não o faço para jogadores iniciantes…

Espero que tenham gostado! Abraço a todos!

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2 Comentários

Publicado por em 21/06/2012 em RPG

 

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2 Respostas para “Don’t Rest Your Head RPG – Resenha

  1. Guilherme Moraes

    21/06/2012 at 6:43 PM

    E que será publicado pela RetroPunk em 2013, provavelmente…

     
  2. guidoconti

    21/06/2012 at 6:55 PM

    Olá Guilherme,

    Eu espero que sim, pois uma tradução seria muito em vinda! Só de ler a premissa muitas idéias vêm à mente, não? Espero ter a oportunidade de mestrar este surpreendente RPG em breve…

     

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