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Corações Sujos – Comentários

13 set

Provavelmente um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É um filme com a medida verdadeiramente correta de equilíbrio entre elementos cinematográficos, históricos e ficcionais. Só tenho uma palavra para definir este filme: shibumi.

por Guido Faoro Conti

Olá meus caros. Sei que não se trata de um filme que pertença bem ao estilo da cultura pop em geral que abordamos no nosso site mas… se a coisa é boa eu tenho que passar para vocês meus caros leitores. E pelo conteúdo histórico tenho certeza que muitos leitores vão se interessar. Eu não sei se o filme ainda está em cartaz, sinceramente, mas se não, não deixe de assistir essa verdadeira pérola da cinegrafia brasileira.

O filme trata de uma situação histórica ocorrida no Brasil que foi relatada no mais do que excelente (que também recomendo mais que fortemente) livro escrito pelo jornalista Fernando Morais de título “Corações Sujos”. É documentário então? Não. Se trata mais de uma romantização de uma das histórias descritas no livro (que este tem um fim mais jornalístico e documental). É um drama trágico de época de um período especialmente complicado da história do Brasil. O período do pós-guerra.

Neste período ainda vigoravam as leis de segurança nacional instituídas para evitar a propaganda inimiga que incluía repressão à manifestações nacionalistas pelos imigrantes advindos da coalização Japão, Itália e Alemanha. Como consequência, aqueles que falavam a língua do inimigo, ostentavam sua bandeira e disseminavam sua cultura estavam sujeitos à ingerência do agente da lei local. Essas leis podiam ser aplicadas com eficiência numa cidade de população heterogênea, com acesso à informação ou num local onde predominasse a influencia do poder público, mas… E numa colônia onde só há pessoas unicamente daquela herança cultural, onde a informação é restrita e determinadas pelos líderes comunitários, a desconfiança é  absoluta e o isolamento é a consequência de uma sociedade que não te entende ou te aceita?  Adicione ao caldo um forte senso voluntarioso, valores rígidos milenares e uma guerra em que a crença na derrota é traição. Pois é, essa é a receita que gerou a “Shindo Renmei”, a única organização terrorista que se teve notícia em território brasileiro.

Eu poderia ficar escrevendo por páginas e páginas sobre a crise de identidade (que foi muito bem retratada no filme) que a guerra provocou nos imigrantes (japoneses; e nos alemães e italianos, também). Poderia comentar detalhes sobre o sofrimento incutido às famílias diante deste lamentável período que tirou a vida de vários inocentes e sobre a solução adotada pelo governo diante da difícil situação. Poderia também falar de como, apesar de todo o preconceito e dificuldades, esta comunidade historicamente se tornou um dos elementos mais importantes do Brasil enquanto nação chegando a influenciar profundamente nossa herança cultural, mas eu não poderia, pois jamais conseguiria fazer justiça em palavras à importância destes brasileiros para o nosso país, por isso vou passar para os comentários acerca do filme.

Alguns ‘spoilers’ são inevitáveis então peço desculpas.

O filme não cita exatamente os nomes das pessoas (com alguma ocultação ou alteração) pois, acredito, para evitar o constrangimento daqueles que vivenciaram os acontecimentos e tiveram relação direta com os fatos. Se  o leitor quiser mais detalhes nesse sentido, vou sugerir que adquira uma cópia do livro de Fernando Morais (COMPRE! É um excelente livro!), mas, simplificando muito, a história trata de acontecimentos ocorridos na cidade de Tupã, no interior de São Paulo. Ocorre que imigrantes estavam comemorando o ano novo (Oshogatsu) quando um cabo, de nome fictício Garcia, liderando um grupo de policiais, resolvem reprimir aquela manifestação cultural do inimigo. Os imigrantes tentaram resistir, mas a truculência fala mais forte.  A bandeira sagrada é arrancada do mastro e usada pelo cabo “Garcia” pala limpar suas botas.  Indignados, sete imigrantes vão até a delegacia tentar capturar o cabo para fazer justiça. São detidos. Para interroga-los o delegado (Eduardo Moscovis) tenta com auxílio de um ajudante japonês entender o que acontece. mas um novo problema surge. Aquele que coopera com os brasileiros, ou que afirma que o Japão perdeu a guerra, é um traidor. Ele tem o coração sujo. E tem que morrer. O cenário está montado.

Não posso falar muito mais sem entregar a trama do filme, mas o grande foco é o romance entre o fotógrafo Takahashi e a professora Miyuki e esta situação conturbada e asfixiante que a vida dentro da colonia se tornou por causa das perseguições aos ‘corações sujos’. Tudo irá redundar, claro, num choque inevitável e incurável nas vidas daqueles que buscavam apenas uma existência pacata e tentar se adaptar o máximo possível à difícil vida num terra estranha e de costumes tão exóticos. Será que é crime buscar a felicidade?

O elenco do filme é épico, para dizer o mínimo. Temos em destaque Tsuyoshi Ihara no papel de Takahashi (que já esteve num papel de destaque no tocante Cartas de Iwo-Jima, de Clint Eastwood); Takako Tokiwa no papel de Miyuki (não tão conhecida aqui no ocidente, mas atriz em vários filmes japoneses e chineses); Eiji Okuda no papel do Coronel Watanabe (sem dúvida, um dos pontos mais altos do filme; um enorme ator e diretor tendo atuado em muitos filmes e séries, inclusive na novela Morde e Assopra aqui no Brasil); Shun Sugata , no papel de Sasaki, o empresário (Shun é um rosto conhecido de todos nós; atuou em Kill Bill e no Último Samurai);  Kimiko Yo no papel de Naomi, a esposa de Sasaki (esta é um atriz  de primeira linha em todos os sentidos… atuou no tocante e  RECOMENDADÍSSIMO filme A Partida); Eduardo Moscovis (aqui numa atuação surpreendentemente adequada) e Celine Miyuki no papel da menina Akemi (que esteve muito bem também). O elenco de apoio também esteve muito bem. Muitos descendente tentando ao máximo imprimir a veracidade e a sensação atordoante daqueles acontecimentos chocantes que acontecem na vila de Tupã. Muito bom mesmo.

Bom meus caros, termino fazendo um breve balanço da produção. O filme foi muito bem filmado e se o diretor, o sr. Vicente Amorim pretendia fazer um filme brasileiro com espírito japonês devo dizer que ele foi 100% feliz nas suas escolhas. Aparte algumas escolhas estilísticas (não gostei da lente intencionalmente desfocada em alguns momentos; me pareceu um pouco desnecessário, mas nada que atrapalhasse), o filme é muito bonito e bem filmado. A fotografia também é muito bem feita. O filme tem exatamente aquele ritmo de contar história que os fãs do cinema dramático japonês gostam e faz no ritmo moderno que estas produções tem surgido do lado de lá. A velocidade exata para a história, nem rápido, nem lento, mas de tensão crescente. Um grande filme. Sem mais palavras.

Se vocês quiserem ter mais informações deem uma checada no blog do filme. E assistam. Vocês vão gostar. E se identificar, como eu me identifiquei. Recomendo de verdade!!!

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Publicado por em 13/09/2012 em Cinema

 

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