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O Wargamer e as guerras

17 nov

Pretendo escrever aqui regularmente sobre jogos no tradicional sistema de “tabuleiro e peças de papel” – incluindo wargames, eurogames e ameritrashes – e para começar com o pé direito vou falar sobre um dos significados que os wargames possuem para mim além da diversão em si.

Tempos atrás recebi pelo facebook isto:

Atenho-me ao desenho que diz o que outros gamers pensam de nós, que foi representado por um desfile nazista. A brincadeira esconde uma verdade – para muitos, o Wargame é uma idolatria à guerra, e o Wargamer em si um adorador dela.

Não é preciso ser um pacifista para aceitar que guerras, independente de suas razões, são sinônimos de mortes e destruições. E também não é preciso muito para que aquele jogador que gasta seu tempo e dinheiro em representações dessas seja visto como alguém que encontra interesse nessas coisas, ao invés de, por exemplo, na representação da construção de castelos ou da manutenção de uma fazenda. Eu, particularmente, acho um barbarismo você em um jogo matar seu próprio animal de estimação como comida, mas isso parece nunca ter incomodado ninguém que conheço.

Mas posso eu dizer que não me importo que em um Wargame represento a morte de inúmeras pessoas, que quando encaro a tropa alemã estou pensando e agindo como um comandante nazista deve ou deveria ter feito? Que para mim é apenas um jogo, que a mecânica me encanta e que assim como outros jogadores enxergam naquele cubo do Agricola apenas um cubo – no qual eu enxergo um animal indefeso que está sendo morto contra sua vontade – no wargame eu vejo apenas números e hexágonos desconexos com a realidade? Não, isso seria um absurdo! Espera-se que um Wargamer tenha plena consciência do que está representando, ainda mais que isso – que aquilo aconteceu realmente, que seres humanos deram sua vida para ganhar uma batalha ou uma guerra, que um dos jogadores está jogando com o lado perdedor, isto é, o inimigo, o “errado”.

E, mesmo assim, a imagem que isso passa é que um Wargamer se vê como um comandante bem protegido em sua HQ e que gosta de manipular seus soldados mesmo que isso cause suas mortes.

O que desejo argumentar é que, para muitos Wargamers, a imagem imposta sobre eles é a oposta da realidade – que, ao jogarmos um Wargame, temos muito mais consciência das atrocidades da guerra, sabemos muito melhor o quão terrível ela é, do que o jogador que, como os macacos que não enxergam, falam ou escutam a maldade, acreditam que assim estão protegidos dela.

Para começo de conversa preciso repetir as palavras que Barack Obama pronunciou ao receber o prêmio Nobel da Paz: as guerras são horríveis mas sempre aconteceram e continuarão a acontecer visto que é algo incalcado na natureza humana. Quão bom seria não haver guerras, religiões, racismo, e que todos pudéssemos viver em paz e harmonia, como dizia John Lennon, mas não somos imaturos e precisamos aceitar que essas coisas aconteceram, acontecem e acontecerão até o fim dos tempos. Isto está além da boa-vontade, assim como o desejo pela maldade jamais acabará com a fraternidade inerente aos corações humanos.

O passado não se altera e milhares de guerras já ocorreram – sendo assim, como lidar com este fato? Sim, o passado é fixo, mas é possível mudar o modo como o enxergamos, de onde a já conhecida frase de Santayana de que repetimos aquilo que não compreendemos. Se olharmos para a história da humanidade veremos que os momentos mais marcantes, os eventos que mais alteraram a estrutura humana na face da terra são os decorrentes de batalhas. Se falo da idade média, o que será lembrado? A era das trevas (uma guerra ideológica religiosa, representada, por exemplo, em jogos como Here I Stand) ou as cruzadas (veja Kingdom of Heaven). O novo testamento fala da dominação dos Romanos (representado em inúmeros jogos, centenas deles). Entre as pessoas mais lembradas do século vinte estão Hitler (Segunda Guerra), Gandhi (Guerra da independência da India) e Einstein (física atômica). Todos os países importantes que conhecemos passaram por vários confrontos para ser o que hoje são, com sua língua, crenças, território – os EUA com a Guerra da Sucessão e a Guerra contra o México; a Europa com as duas grandes guerras e incontáveis outras batalhas; a Europa Oriental com a Guerra fria e a cortina de ferro; a China socialista que hoje pode importar produtos para todo o mundo graças à Guerra de Mao Tse Tung, por seu lado uma resposta a inúmeras invasões e ataques feitos por países como a Inglaterra, União Soviética, Japão; o próprio Japão e a influência americana que recebe após a guerra do Pacífico; o Canadá com a guerra entre França e Reino-Unido; e por aí vai. O que se percebe aqui é que reconhecer as guerras não é apenas uma questão de mortes e destruição, mas uma questão de história – mesmo que você queira conhecer a história de um país pequeno como a Islândia ou a Nova Zelândia, terá acontecido alguma batalha entre imigrantes e nativos, entre dissidências políticas, apoio em batalhas de outros países, etc. Angola? Guerra. Egito? Guerra. Mongólia? Guerra. Turquia, Paquistão, Cuba, Haiti, Chile, guerra, guerra, guerra. Curtas, longas, sangrentas, psicológicas, não importa: a história é feita de guerras – não apenas delas, mas também.

E agora eu peço que você imagine a guerra do Chaco, que ocorreu entre 1932 e 1935 entre o Paraguai e a Bolívia, países vizinhos ao nosso. É possível que você jamais tenha ouvido falar desse evento. Eu falando assim o nome não te trará mentalmente nenhuma morte ou destruição – na verdade, você talvez ache que esse evento é de pouca importância. Talvez desmereça o Paraguai como apenas um país que vende produtos de baixa qualidade (digo por experiência própria que a capital, Assunção, é melhor que muitas capitais aqui do Brasil). E a causa disso? A Guerra do Paraguai – que provavelmente você irá ver como um desejo do Paraguai de alcançar o mar, como a professorinha te ensinou na escola. Quem dera fosse tudo assim simples… e que a Guerra do Charco não tivesse sido a guerra mais sangrenta que ocorreu nas Américas durante todo o século XX, com mais de 90 mil mortos.

(O Panteão Nacional dos Heróis, em Assunção)

No outro extremo eu consigo imaginar um jovem soldado paraguaio ou boliviano em um forte mal construído vendo centenas de seus companheiros morrerem para defender um pedaço de terra que será futuramente explorado por grandes capitalistas e empresários estrangeiros em proveito próprio. O que é preciso para que você tenha consciência do que ocorreu e não um pensamento como “que me importa uma guerra em um país que não me importa”? Conhecê-la. E você conhece ela como? Por livros, por filmes… e por Wargames.

Sendo histórico, um Wargame te mostrará exatamente quem participou de um evento. Jogo Combat Commander e vejo que no final da batalha tais e tais peças foram destruídas e tenho consciência que na realidade um número próximo daquele deve ter se sacrificado. Que ambos os lados sofreram perdas horríveis, que a vitória tem seu preço. Agora, jogo Through the Ages e o que é a guerra lá? Um evento em que um lado sofre danos inestimáveis e o outro recebe pontos de vitória! Que absurdo! Não faz a batalha parecer ótima para o vencedor? Qualquer Wargamer irá te dizer que na guerra todos perdem, todos sofrem danos…

Assim como você, me ensinaram que a Primeira Guerra mundial aconteceu por causa do assassinato do arquiduque Francisco Fernando… e você ainda credita que dezenas de países, dos Estados Unidos até a Turquia e além sacrificaram milhões (sim, milhões – os aliados perderam mais de 5 milhões de soldados, além de 12 milhões de feridos – contando os civis, os mortos ultrapassaram 9 milhões em apenas um dos lados!) de seus cidadões por causa de morte de um arquiduque? Quem dera, novamente… e novamente os macacos que fecham os olhos e ouvidos para não se aproximar do mal, ao invés de encará-lo frente a frente.

Repito que esse pensamento não é o mesmo de todos os Wargamers, assim como há inúmeras pessoas que não querem saber de guerra e que nunca abriram um livro a respeito que tem plena consciência do horror causado por uma. Mas gostaria de contar um experiência minha. Muito antes de me tornar um Gamer estive na Europa, mas precisamente na França e no Reino Unido. Em quase todas as cidades, mesmo as bem pequenas, encontrava no centro delas um monumento com vários nomes escritos e a imagem de um soldado, de uma mulher representando a liberdade ou algo similar. Não me impressionava – na verdade, eu pensava que era algo ultrapassado, já desnecessário. Por que louvar ainda os mortos na Primeira ou Segunda Guerra mundial? Já não estamos no século XXI? O mundo mudou, ninguém quer guerras, não podemos deixar o passado pra trás? Guerras são erradas, não? E eu pensava que monumentos a elas seriam errados também.

A questão é que neste mesmo ano voltei à França e passei, entre outras cidades, por Meyrueis, que não possui mais de mil habitantes (mais exatamente 882). E lá estava, na rua principal, um monumento com uma centena de nomes. Olhei ao redor e pensei que aquela cidade, na época, deve ter enviado todos seus jovens para a guerra. Aquilo que, anos antes, parecia-me algo supérfluo, desta vez encheu meu coração de tristeza e respeito. Pensei naqueles jovens franceses, muitos com a mesma idade que eu, com uma esposa que deixaram para trás, pensei nos jovens que não tiveram a oportunidade de estudar em uma Universidade, de se casar, de ter os amigos que tenho, de aprender sobre o mundo, pois estavam defendendo um país que, por ter vencido, estava lá para ser visitado por mim. Pessoas que morreram para que uma nação, uma cultura, pudesse continuar existindo; para que a França possa ser hoje uma democracia livre e não um nação subjugada a outra. Para que eu possa ler os livros na belíssima língua francesa ao invés de outra, que eu possa ir a Paris e ser mal-tratado pelos garçons como todo estrangeiro, que possa ampliar meu conhecimento, estudar, viver como uma cidadão com minha mentalidade capitalista-democrática em um país capitalista-democrático, e não em um país nazista, ditatorial, comunista ou o que quer que seja.

(A estátua em Meyrueis)

E o que trouxe essa mudança de pensamento, entre um jovem ignorante e um adulto respeitoso, foram os Wargames. Eu jogo e me divirto movendo minhas peças e lançando tiros imaginários nas peças de meus oponentes. Mas isso não tira o eterno respeito que sinto por aqueles jovens que deram suas vidas por nós, pelos comandantes que tomaram no calor do momento decisões muito mais inteligentes que as minhas – ao contrário, ele amplia. É como o monumento no centro da cidade – ele não é agradável , ele não é bonito, quem dera fosse não um túmulo da guerra mas um monumento de paz. O Wargamer pode ser visto assim: talvez não pareça bonito para os desisteressados, mas em essência são monumentos à memória daqueles que deram suas vidas para que hoje possamos viver como vivemos.

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1 comentário

Publicado por em 17/11/2012 em Wargames

 

Uma resposta para “O Wargamer e as guerras

  1. herrmiller

    19/11/2012 at 9:31 PM

    depois da astronomia, os jogos de guerra foram dos meus maiores estimulantes a leitura, e quanta coisa eu descobri e aprendi com isto, e some-se ao fato de que num pulinho eu estava da guerra para a história e desta para outras disciplinas, antropologia e sociologia até política e fillosofia….

     

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