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Ameritrash – o que é?

30 nov

Tema, sorte e tensão – e um nome enganador.

Ao lado do Eurogame e do Wargame, o Ameritrash é um dos estilos de jogos mais utilizados no mundo atual dos boardgames. De início é necessário dizer que o termo – “lixo americano” – é errado por duas razões: nem todos os jogos considerados Ameritrash foram feitos nos EUA (assim como muitos Euros não foram feitos na Europa), e principalmente que não há nada de lixo nesses jogos maravilhosos. Um nome mais feliz é o “Jogo temático”.

Enquanto Euros são basicamente mecânicas bem construídas sobre as quais é colado um tema – muitas vezes com uma cola bem sem-vergonha – o Ameritrash é feito ao reverso: um tema explorado ao máximo, com regras colocadas posteriormente de forma a trazer o máximo possível do tema à superfície.

Sendo assim perdemos muito no equilíbrio, na elegância do design, mas em troca disso temos algo valioso: imersão.

Pegue qualquer pessoa que curta a série de TV “Battlestar Galactica” e que tenha jogado o board e te dirão que o jogo reproduz incrivelmente os eventos e sentimentos da série! O mistério de quem é ou não um cilônio, os problemas enfrentados, as personagens, tudo está posto nas peças e cartas. Ah, nada como uma revelação cilônia bem-feita para ser lembrada por anos pelo grupo de jogo! Se você curte as obras de H.P. Lovecraft e de outros autores do “Cthulhu Mythos”, nada melhor a fazer do que colocar na mesa “Arkham Horror” e tentar salvar a cidade dos Grandes Antigos – lendo tomos malditos, conseguindo armas e itens especiais, aprendendo magia… Já vi jogadores experientes dizem que a emoção de jogar um “Gears of War” foi a maior que já sentiram no mundo dos boards!

Battlestar Galactica

Os Ameritrash também primam pela qualidade das peças: miniaturas, cartas com fotos, tabuleiros bonitos, tudo para aumentar a imersão.

Mas qual é a penalidade a se pagar por tamanha diversão? Basicamente três: a exigência da sorte, repetição e possivelmente certos desequilíbrios.

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A sorte é necessária para nos trazer o sentimento de estar com os nervos à flor da pele: a Galactica precisa saltar – em um dado de 8 lados, apenas com 7 e 8 teremos sucesso. Mas é tudo ou nada… e alguém precisa fazê-lo! Ou aquele Cthulhu que está prestes a dominar o mundo a menos que, em um dado de 6 lados, o jogador tire um 5 ou 6… a alegria de um sucesso nesses momentos é uma experiência única e incomparável!

Nisso temos uma diferença para os Euros – que raramente usam dados – mas também para os Wargames. Nestes, embora a quantidade de dados jogados seja enorme, é possível manipular bastante os resultados. Por exemplo, se agrego mais tropas, tenho mais chances; se aguardo para atirar mais de perto, também – mas assim aumento a possibilidade de ser atingido. Posso jogar seguro, ficar protegido, mas a possibilidade de acertar será menor. Na verdade, em um wargames pode-se ir de um extremo onde o sucesso só se alcança com dois números 6 em dois dados, até um que não se falha nunca! Muito da estratégia é direcionada para isso… mas falaremos deste estilo na próxima semana; voltemos ao Ameritrash.

No Ameritrash, embora existam formas de mudar as rolagens, elas são poucas e não tão grandes. É preciso coragem, é verdade, para encarar isso, além de ser um bom perdedor…

A repetição é outro problema. Como as cartas e eventos contam histórias bastante específicas, após algumas sessões elas começam a se repetir e isso pode tirar um pouco do contentamento. Para isso existem inúmeras expansões que aumentam o número de cartas. Em Arkham Horror, por exemplo, eu sempre sugiro que o interessado compre pelo menos duas expansões, para assim tirar mais do jogo – embora isso não seja algo barato.

Arkham Horror

Por fim, em troca da diversão perde-se no equilíbrio. Geralmente cada jogador começa com um personagem diferente, que podem variar de força e utilização. Em jogos bem feitos isto não é problema, mas em algumas expansões do Battlestar Galactica, por exemplo, existem personagens muito fortes que tornam o jogo muito fácil para os humanos. Mas esse problema não é apenas de setup inicial – não é improvável que certa mecânica ou expansão facilite ou dificulte demais uma partida em seu desejo de trazer algo do tema à mesa.

Esses são pontos que o jogador precisa compreender e conviver com eles se deseja curtir um Ameritrash. Em um Cosmic Encounter, por exemplo, você pode jogar com uma raça desigual, basicamente destinada ao fracasso, mas isso faz parte da aventura. No Order of the Stick, usando um exemplo de Ameritrash que não tão deu certo, o jogo é tão preocupado em tipos e caras que a mecânica é de fato mal-feita.

Minha dica final para os interessados: compre Ameritrash se você curtir o tema bastante. As chances de valer a pena são enormes, mesmo os problemas do jogo.

Na próxima sexta falarei de Wargames – até lá!

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10 Comentários

Publicado por em 30/11/2012 em BoardGames

 

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10 Respostas para “Ameritrash – o que é?

  1. Chikago666

    30/11/2012 at 5:15 PM

    Por isso que eu chamo de Amerilixo e Eurobosta, pra não difamar nenhum ;P

     
  2. herrmiller

    30/11/2012 at 6:10 PM

    hehehe, e decerto isto também quer dizer que voce não gosta de jogos, hehe….

    ameritrash = eu acho que prefiro este tipo, gosto de que o tema se sobreponha a qqer coisa em jogo, ( e por isto os jogos de guerra é que afinal de contas são os que realmente conseguem a minha atenção… )

     
  3. warjoin

    30/11/2012 at 8:06 PM

    Fala Gustavo. Acredito que vc seja o cara que jogou Brittania comigo na última lúdica. Eu sou o saxão que dominou o mundo, huahuahua.
    Gostei da matéria, mas pareceu que ficou a impressão de que ameritrash é, necessariamente, jogo com falhas. Isto é “falso”, uma vez que existem os ameritrashes equilibrados e, em outros casos, o desequilíbrio é muitas vezes proposital em função do tema.
    Outra coisa, a expressão “trash”, além do que vc citou, também faz referência ao “lixo” em tokens e peças que estes jogos normalmente possuem (token pra vida, token pra fadiga, dinheirinho, carta de marcar lugar de leilão, e et ceteras “desnecessários”)

    Abs.

     
    • vazquezramos

      30/11/2012 at 11:05 PM

      Beleza? Sim, aquele jogo foi muito legal! O que você comentou sobre o lixo se referir à quantidade de peças é muito bacana! De fato eu não havia me atinado com isso. Porém, não creio que preciso mudar o que escrevi em relação ao resto. Dê uma olhada nessa frase do texto:

      “Mas qual é a penalidade a se pagar por tamanha diversão? Basicamente três: a exigência da sorte, repetição e POSSIVELMENTE certos desequilíbrios.”

      E veja isso aqui:

      ” EM JOGOS BEM FEITOS ISSO NÃO É UM PROBLEMA,”

      O que não coincide com “mas pareceu que ficou a impressão de que ameritrash é, necessariamente, jogo com falhas.”

      Realmente não faria sentido, vendo o que deixei em maiúsculas, pensar que eu teria dito que necessariamente os ameritrash teriam falhas, se em disse que isso é possível, e não necessário, além de afirmar que em certos casos isso não ocorre.

      Por fim, preciso afirmar que em nenhum momento associei a ideia de desequilíbrio com o conceito de falhas – e de fato eu não acredito que essas duas coisas tenham uma relação necessária entre si.

       
  4. chikago666

    01/12/2012 at 10:07 AM

    herrmiller, pelo contrário. Adoro boardgames (pbdt.chikago.com.br) mas acho uma babaquice ter “nomes difamatorios para um ou outro”, assim, avacalho com os 2 🙂

     
  5. herrmiller

    01/12/2012 at 11:55 AM

    ah, mas veja, acho que agora um ‘novo paradigma’ se abriu diante dos meus olhos ( to brincando) , com a colocação do amigo ali em cima que disse que TRASH se refere a GRANDE QUANTIDADE DE TOKENS e coisas do tipo, neste caso, e isto pode bem ter ocorrido, a expressão AMERITRASH não teve uma conotação inicialmente perjorativa.
    deviam ter dito : ameriPOLLUTED talvez, hehehe, mas estou divagando além de fazendo graça idiota, o que me parece é que os jogos deste tipo se aproximam mais dos wargames, existe uma DISPUTA entre ‘personagens’, ou algo assim, em jogo, e não uma disputa somente entre jogadores, …. faz sentido isto ?…
    🙂

     
  6. warjoin

    01/12/2012 at 4:21 PM

    Claro, claro Gustavo. Como eu disse achei o texto ótimo, assim como a maioria dos posts aqui do blog. Só quis acrescentar algo.
    É que estas opiniões escritas, resumidas e sem a conotação da voz e expressão facial, às vezes podem levar à impressão de confrontamento.

    Miller, o “amigo ali de cima” é, na verdade, o amigo aqui de baixo, de joinville.

    Abs.

    Rafael.

     
  7. herrmiller

    01/12/2012 at 5:04 PM

    sieg heil kamerad! hahaha….
    INVERNO de 2013 – te espero para começarmos uma sucessão de jogos FOW , algo como uma campanha, lustre suas botas e engraxe seu garand! 🙂

     
  8. warjoin

    01/12/2012 at 8:11 PM

    Pro inverno de 2013? Beleza. Eis um bom motivo para eu voltar a mexer nas minhas miniaturas.

    Combinado!

    Sério mesmo hein!

     
  9. Renato

    09/12/2012 at 5:58 PM

    Ameritrash forever!

     

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