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A beleza do wargame

22 mar

Por que a imprevisibilidade é um rico desafio.

Mesmo com jogos que utilizam conceitos de wargames sem realmente sê-los, ou de wargames que utilizam mecânicas de eurogames sem deixar de ser sobre guerras, que o wargame é um estilo de jogo à parte dos demais não há dúvidas. Não se trata apenas de uma questão de regras ou nomenclatura – estamos falando de uma essência e um propósito que divergem às vezes completamente daqueles buscados e alcançados por outros jogos.

Você já deve ter se deparado com pessoas que se dizem estritamente wargamers – que se recusam a colocar um euro na mesa. Da mesma maneira são inúmeros os jogadores que olham para os wargames de viés, sem o menor interesse em entendê-los. Podemos começar a compreender as diferenças em uma característica simples mas fundamental: os wargames, na maior parte dos casos, são jogos para 2 jogadores. Este pequena diferença provoca consequência enormes. Sim, há euros para dois. Mas se tomarmos aleatoriamente quaisquer euros, veremos que nem a metade é apenas para dois jogadores. Agora, são realmente poucos os wargames que podem ser jogados por mais que 2 jogadores.

Na minha opinião isso gera uma relação muito mais cordial entre os jogadores do que em um jogo de mesa comum. Provavelmente a pessoa vai pensar que é o contrário – afinal, em um euro você está convivendo com mais 3, 4, 5 pessoas, todas as redor de um mesmo propósito. Mas quantidade não é qualidade – na verdade até mesmo podem ser fatores contrários. Os wargames são jogos em que cada movimento do oponente é extremamente importante, você altera seu jogo a todo instante para se adequar aos movimentos do adversário. Nos euros, quantos não são, na verdade, multiplayer-solitaries a maior parte do tempo? E mesmo naqueles em que você depende da ação do adversário para fazer a tua, não há influência direta entre tua ação e a dele, você não “atinge” ele diretamente com tua ação. Além disso, ao ser ver face-a-face com outro jogador durante horas a fio você cria vínculos muito maiores do que superficialmente com 4 ou 5. O wargame, dado seu alto nível de caos, de peças e opções de ação, permite maior flexibilidade de jogo – as ações possíveis são computadas nos níveis dos milhares, enquanto em um euro não passamos, muitas vezes, sequer da primeira dezena. Assim, com o tempo você irá observar claramente o modo como seu oponente joga – se ele é mais ofensivo, defensivo, que tipos de estratégias ele costuma fazer, se ele confia mais na tática, na sorte ou se é cauteloso, e assim, após algumas partidas, começa-se a entender cada vez mais o seu amigo do outro lado da mesa.

Outro fator determinante entre a diferença entre euros e wargames é a utilização de dados. Mesmo que alguns euros usem, nunca chegará a quantidade daqueles usados nos wargames, que novamente pode passar das centenas de rolagens em uma única partida (novamente aumentando o número de possibildades). Já conheci mais de um gamer que se sente ultrajado por isso – não ter controle total das suas ações e depender de algo tão sutil quanto dados. Sinceramente, é conversa de mal jogador. A maioria dos euros também depende da sorte, não na forma de dados, mas de cartas ou outro fatores – que o diga um jogo como Agricola ou Civilization. A sorte é que permite a rejogabilidade – um jogo fixo, sem sorte, sem variações, se tornará redundante com o tempo.

Além disso, o wargamer aprende a lidar com o caos dos dados. Você sabe que está jogando com probabilidades, e precisa jogar adequadamente para mudá-las a seu favor. Se tua chance de acertar o oponente é de 33%, você pode mudar seu jogo para deixá-la em 50% ou mais, e assim lidar com o caos a seu favor. Mas será contestado pelo não-wargamer que a chance de erro sempre existirá, tirando a possibilidiade de eu simplesmente poder acertar com 100%, sem riscos…

Então temos o que diferencia um wargamer de um não-wargamer. Em um wargame você está a todo instante sujeito à questão “devo me arriscar?”. Posso permanecer em meu esconderijo, seguro e protegido, com meus 100% de chance de não ser morto, mas com 0% de chance de acertar o inimigo. Se saio em campo aberto, aumentando a chance de acerto em 50%, digamos, estou diminuíndo, ao mesmo tempo, minha chance de sobrevivência – tenho coragem para fazer isso? Como é bom ter tudo sobre controle, não? Mas assim que algo sai do script, o que fazemos? Como nos adaptamos? Assim, não é uma questão do wargame depender dos dados – mas de depender de jogadores com coragem/loucura de jogar os dados. São coisas bem diversas!

Não é assim a vida? Quem sabe o que pode acontecer? Se você anda numa autoestrada, está correndo o risco de sofrer um acidente. O risco sempre haverá. Você pode dirigir o melhor que puder e reduzir o risco a 0,000001%, estando sempre atento aos outros motoristas e às regras de trânsito. Mas você pode beber alcoolizado e aumentar o risco para 99%. A opção não é do carro, da estrada, ela é tua. Reclamam que em um wargame você não tem controle? Crie-o.

Com isso temos outro grande ponto positivo do wargame – você precisa aprender a perder naqueles momentos em que não há de fato um culpa direta tua. Você muitas vezes terá feito as melhores opções, os melhores movimentos, para ter os piores lances de dados e ver tudo ruir. Muitas vezes você verá seus soldados morrerem e, embora tenha ainda condições de vitória, já ter perdido em sua cabeça. Em outras, estará tão confiante que teu oponente, inesperadamente, irá fazer um movimento que te destruirá. Mas no final não importará a vitória ou derrota – mas como você venceu ou perdeu. Pergunte a qualquer wargamer – melhor uma derrota combatida, suada, no extremo do que uma vitória fácil, sem ousadias nem nada. Aquele jogador no outro lado na mesa não é um inimigo, alguém que você precisa vencer – é a pessoa da qual você depende para se divertir. Quanto mais forte for ele, mais forte será você. Se ele teve uma vitória fantástica, é por que você jogou fantasticamente, e vice-versa.

Apesar da dificuldade em jogar wargames, admito que continua sendo o estilo que mais me agrada e mais me satisfaz como boardgamer!

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2 Comentários

Publicado por em 22/03/2013 em BoardGames, Wargames

 

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2 Respostas para “A beleza do wargame

  1. herrmiller

    22/03/2013 at 12:42 PM

    wargames são assim , é bem isto mesmo!

     
  2. vazquezramos

    22/03/2013 at 3:36 PM

    Ontem joguei o Combat Commander com o Rafael Martins. Faltava pouco para acabar o jogo e eu estava com mais de 30 pontos da frente dele, o que é muito mesmo! De repente, em uma sequência de rodadas, ele conseguiu diminuir isso para 1 ponto a meu favor! Acho que foi a perda de pontos mais rápida que já vi! E foi por umas 2 cartas que ele não vence, que o jogo termina antes que ele pudesse dar o golpe fatal!
    Mas assim são os wargames, essa é a diversão!

     

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