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O Abutre – resenha

08 jan

Uma crítica mordaz aos excessos da mídia, com uma atuação aterradora de Jake Gyllenhaal.

por Gustavo Vazquez Ramos

Na tradição de Taxi Driver, de Martin Scorcese, com um visual art-house que remete a filmes como Drive, Nightcrawler é uma corajosa crítica à mídia, atacando seu alvo sem rodeios. Tenso, cínico e em vários momentos até mesmo desagradável, o filme cativa pela verdade que deixa transparecer – somos encantados em ser espectadores da violência sofrida por outros.

Louis Bloom (Gyllenhaal) é um cafajeste do mais baixo escalão. Sem emprego, ganha seu sustento fazendo coisas como roubar cercas de arame e tampas de esgoto para vender no ferro-velho. Uma noite, passa ao lado de um acidente de automóvel ao qual a polícia havia acabado de chegar. Enquanto contempla a cena, surgem os “abutres” – cinegrafistas amadores que filmam os primeiros (e piores) momentos do evento (vítimas sendo socorridas, pessoas baleadas, etc.) para depois vender as imagens para as emissoras de TV.

Percebendo nisso um grande negócio, Bloom começa, de forma extremamente amadora, a filmar eventos desagradáveis. Mas algo o diferencia dos outros – sua coragem (entenda-se: “falta de moral”) em ultrapassar os limites aceitáveis para chegar próximo das vítimas, invadir suas casas, até mesmo alterar o cenário para que tudo fique mais agressivo, violento, e vendável. Com o tempo o dinheiro vai entrando e Bloom pode trocar seu velho carro por um Dodge Challenger, sua câmera amadora por uma profissional, comprar aparelhos para ouvir a faixa da polícia, etc.

Lendo assim pode parecer que Bloom é alguém interessante, vitorioso, com até certo talento. Mas não é o caso. Gyllenhaal, em uma atuação que já rendeu inúmeros prêmios, criou uma das personagens mais desagradáveis do cinema. Se você acha que Darth Vader (“Noooooooooo….”) ou aqueles vilões do Homem-Aranha cheio de desculpas para suas ações (geralmente insanidade) são malvados… meu amigo, você não viu nada. Ao lado de Louis Bloom, Darth Vader ou o Caveira Vermelha parecem as pessoas mais simpáticas do planeta. São pessoas com quem você ainda consegue conversar, que possuem um mínimo de coerência. Bloom é daqueles caras que, metaforicamente falando, esfaqueia a pessoa, leva a vítima pro hospital para ser curada, para assim poder esfaqueá-la novamente – filmando isso e depois ganhando muito dinheiro.

A fisionamia de Gyllehaal é assustadora. Mais magro que o usual, seus olhos são opacos, seu sorriso falso, cada gesto medido de forma a tirar o maior proveito dos outros. Parece um desalmado, um invólucro de um homem. Em nenhum momento há simpatia. As outras personagens parecem moscas caindo em sua teia, alguns para sua desgraça, outras sendo corrompidas junto.

Com suas quase duas horas, o filme mantém o tom quase sempre constante, com leves e rápidos alívios cômicos, mas que em nada ajudam a remover a sensação de desolação que passa. É uma obra que não faz o espectador se sentir sujo – faz ele enxergar o mundo como algo sujo. Os abutres realmente existem. Basta ligar a televisão à tarde para ver os mais baixos “programas policiais”. Mas não só – mesmo os noticiários do horário nobre, as revistas semanais… vocês nunca sentiram a alegria dessas mídias após um acidente horrível? A capa do semanário explodindo em cores chocantes, letras garrafais… a face do âncora da TV triste, triste, como só um ator conseguiria… e sabemos bem como vendem mais após um desastre de avião, do início de uma epidemia, de um ataque terrorista.

É sobre essas coisas que O Abutre nos faz pensar. A mídia é um grande circo. Mas ela só está lá por que existe as pessoas na arquibancada, aplaudindo os palhaços em cena.

 

 
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Publicado por em 08/01/2015 em Cinema, Geral

 

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