RSS

Trash Comics: O Falcão e o racismo nos quadrinhos

19 fev

Vamos ser diretos: o Falcão é um dos maiores personagens da Marvel Comics. E ainda mais o Falcão original, criado pelo mestre Stan Lee e pelo brilhante Gene Colan.

No início, Sam Wilson era um cara normal que tinha um falcão que ele havia amestrado. Quando o Capitão América conheceu ele, o Falcão estava, sozinho, ajudando uma vila a batalhar contra criminosos nazistas. Com as mãos nuas. Em um dia, ele aprendeu a lutar igual ao Capitão. Não sei vocês, mas uma coisa é nascer mutante, tomar um soro ou ser picado por uma aranha que – sorte – te dá poderes. Mas domesticar um falcão e lutar contra o Capitão de mano com o mínimo de preparo – você precisa ser bom mesmo.

falcon-first-appearance

Gene Colan: “Eu amava desenhar negros… muito de sua força, espírito e sabedoria está escrito em suas faces.”

Com o tempo as coisas foram mudando e o Falcão começou a expandir seus poderes, voar, ter uma vestimenta mais bacana, essas coisas. Em determinada época, ele chegou a dividir o título da revista do Capitão América – ela se chamava “Captain America and the Falcon”. Ele era bom assim.

Tudo muito lindo e maravilhoso. Até que apareceu esse branco aqui:

7626170870_45dde2ff30_b

Obrigado por nada.

Steve Engelhart é o nome.

Até então, a origem do Falcão era pouco profunda, mas bastava – garoto nascido no Harlem, com afinidade com pássaros, no Rio de Janeiro consegue seu falcão Redwing, conhece Capitão América, está de bom tamanho.

Mas não… não… o sr. Engelhart precisava reescrever a origem dele. Inventou uma história totalmente absurda com o Caveira Vermelha tendo apagado a sua mente (contraditória e sem sentido com a origem de Lee/Colan), para que o Falcão se tornasse seu espião (embora em sua origem é o Falcão quem derrota o Caveira Vermelha, com maestria), e precisou dar uma profissão prévia para ele.

Adivinhem qual é. Sim, criminoso. Óbvio, ele era um negro do Harlem, não é? Não é, senhor Engelhart?

Pronto. Ferraram tudo. Anos de histórias incríveis, com um herói modelo, pra quê? Ah, mas ele era negro. Não pode ser um modelo. Óbvio que tem algo podre por trás. Na maioria das vezes é assim.

snap20wilson

Obviamente um branco precisou transformar esse grande herói em um cafetão estereotipado.

Estão duvidando? Vamos fazer um roll call das profissões dos 5 personagens negros mais antigos e importantes da Marvel antes deles virarem heróis:

Falcão – membro de gangue e criminoso.

Luke Cage – membro de gangue e criminoso.

Ororo – ladra.

Pantera Negra – líder de uma tribo na África, bem longe dos EUA.

Golias Negro – personagem menor, mas vai lá, só pra não dizer que estou implicando – bioquímico.

Certo, depois refizeram a história da Ororo e colocaram ela como princesa e tal. E graças aos céus, algum escritor decente e digno (Rick Remender) mostrou que essa suposta origem do Falcão não mais valia – ela que era a mentira. O que faz, pelo menos, sentido com a origem de Lee/Colan. Mas ainda tem gente reclamando disso – de que ARRUMARAM a origem do Falcão (por exemplo, o site bleedingcool.com, mas não vou passar o link direto, pois eles não merecem). Mas eu fico louco…

E mesmo essa correção levou quase 40 anos para ser feita. Uma coisa é você pegar um vilão – Viúva Negra, ou o Cavaleiro da Lua, por exemplo – e torná-lo um herói depois. Outra é pegar um herói muito bacana e denegrir sua imagem de acordo com uma visão extremamente racista do autor. Sim, racista, pois na cabeça de certas pessoas um negro do Harlem não pode ser um professor, digamos, ou um funcionário público, veterinário (esse ainda teria alguma lógica), atleta, etc. Um negro não poderia ser um modelo universal. Ele precisa ser um ex-criminoso aceito por um tutor branco… convenientemente o Capitão América (impossível ser mais imperialista que isso) – aí sim ele pode aparecer nas histórias.

De chorar também é a desculpa do Engelhart – foi algo nos moldes de “não havia mais o que contar sobre o Falcão”. O que mostra como o único conhecimento deste cidadão com o Harlem e com o mundo dos negros é a visão estereotipada bem adequada a um filho do imperialismo. Pois é, pensou o senhor branquelo, no Harlem não há nenhuma história para ser contada senão que o herói era um contrabandista… não há realmente nenhuma história sobre um negro que não envolva um passado criminoso… Imbecil! É a mesma coisa! Se podemos fazer uma origem qualquer para um personagem branco – digamos, ele foi mordido por uma aranha, ou ele nasceu mutante, etc. – é possível fazer a mesma coisa para qualquer outra etnia!

E essa é a diferença entre o grande escritor e o resto. Você entrega um personagem mequetrefe para um Alan Moore ou um Grant Morrison, e eles fazem coisas incríveis com eles e os imortalizam. Você dá um personagem incrível para um… ah, deixa pra lá.

Por sorte as coisas mudaram – os personagens negros agora são pessoas com passados normais, que nem as pessoas negras no mundo real.

Mas o que Steve Engelhart e Len Wein (o editor da época) fizeram, foi uma vergonha, que demorou muito tempo para ser consertada e que exigia um pedido de desculpas público. Então:

tumblr_inline_mstud6cvjt1qz4rgp

Na próxima, vou falar do oposto do que aconteceu aqui – a nova Miss Marvel. Grandes histórias, grande escritora: G. Willow Wilson.

 

 

 

 

 

 
Deixe um comentário

Publicado por em 19/02/2016 em Geral, Quadrinhos

 

Tags: , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: