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Biblios – resenha

30 mar

– In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti – entoou o abade, erguendo a hóstia.

– Amém – responderam, em uníssono os monges, ajoelhados nos genuflexórios.

A abadia era escura e úmida, austera em sua construção de pedras cinzas. O sol surgia no horizonte, fora do monastério, e, ali dentro, as velas de cera de abelha queimavam fracas, praticamente exauridas. As laudes seguiram dia adentro e o eco das vozes ressonavam pelos corredores.

– Gloria Patri, et Filii, et Spiritus Sancti. Sicut erat in principio, et nunc, et semper, et in saecula saeculorum – o abade cantou, encerrando a ladainha e as orações matutinas.

– Amém – retornaram os monges.

Após serem dispensados os monges seriam em pares pelos corredores até o refeitório, onde vinho, pão, queijo, mingau e frutas os esperavam. Dali os irmãos separaram-se, indo para suas tarefas diárias e alguns, os mais habilidosos e respeitados foram até o scriptorium – a oficina dos escritos -, onde os pergaminhos e as tintas os esperavam. Os assentos rígidos de madeira não eram confortáveis, mas o costume removera a maior parte do incômodo. Os monges se persignaram, fazendo o sinal da cruz, antes do início do trabalho, pois o serviço era uma litania de louvor aos céus.

Então as penas tiveram suas pontas cuidadosamente afiladas, enquanto o mestre dos copistas supervisionava a mistura dos pigmentos, em particular a moagem do lápis-lazúli e o preparo do auripigmentum – o divino dourado – pois era esperado que as iluminuras preparados ali superassem em qualidade e beleza todos os demais mosteiros da cristandade. Os favores do arcebispo são volúveis e o abade não queria perdê-los. Era necessário, portanto, inspirar com maravilhas em formas de letras e cores. Tudo para a glória do Senhor.

BIBLIOS – O JOGO

Imagem por kherubim

Geral:
Em Biblios os participantes assumem a responsabilidade de levar seus mosteiros a serem os melhores e, para isso, disputam em cinco áreas: monges, pigmentos, pergaminhos, tomos e livros de conhecimento proibido. Aqueles que conseguirem acumular as maiores quantidades e materiais de maior qualidade, serão os mais famosos e respeitados.

Regras:
As regras são bastante diretas e podem ser ensinadas rapidamente para qualquer um. O jogo ocorre em duas fases, sendo que na primeira o jogador revelará um número de cartas igual ao número de jogadores + 1. Ou seja, em 4 participantes, cada um, por seu turno, revelará para si cinco cartas, uma de cada vez. A princípio, o jogador terá 3 opções de uso para as cartas:

a) Pegar a carta para si – máximo de uma carta entre as que revelará;

b) Colocar a carta, sem mostrá-la, para leilão (que é a 2ª fase do jogo) – máximo de uma carta entre as que revelará;

c) Dispor para coleta dos demais participantes.

Assim, por exemplo, se o jogador escolhe ficar com a primeira carta que pegar, entre as quatro próximas (num jogo de cinco participantes) ele não terá mais a opção de manter alguma para si. Se optar por colocar a 2ª carta para leilão futuro, as três que seguintes só poderão ser abertas para coleta dos demais jogadores. Dessa forma, a 1ª fase tem um grande fator de avaliação e pressionar a sorte na espera de que cartas melhores venham. A escolha das cartas não é feita sem conhecimento, pois sabe-se que:

– cartas que ouro vão de valor 1 a 3;

– cartas de monges e pigmentos vão de 2 a 4;

– cartas de tomos, pergaminhos e livros proibidos têm valor 1 ou 2.

Imagem por duchamp

Além dessas cartas, existem aquelas que igreja, que influenciam o valor dos recursos – de começo, os cinco recursos começam em valor 3, mas as cartas de igreja permitem aumentar ou reduzir o valor. Quando o jogador seleciona para si uma carta de igreja, ou quando um outro a coleta entre as opções reveladas, o uso é imediato – o jogador, portanto, não pode manter a carta de igreja em mãos, sob nenhuma hipótese.

Os turnos dos participantes seguem até que a pilha de cartas seja exaurida. Então, inicia-se a segunda fase: a do leilão. Aqui, por seu turno, o jogador revela uma carta e quem estiver à sua esquerda dará o primeiro lance (que pode ser passar, sem ofertar nada) e os demais darão lances em sentido horário. Se alguém passar, não poderá retornar à disputa pela carta. Quem ofertou algo, pode aumentar caso seja superado. Haverá possivelmente dois tipos de leilão:

1) Pelas cartas de recursos – aqui paga-se com ouro, usando o valor numérico indicado na carta de ouro (de 1 a 3). Não há troco, assim se o jogador não conseguir pagar o valor exato, superando por qualquer quantidade, perderá o valor em excesso;

2) Pelas cartas de ouro – aqui, paga-se com quantidade de cartas. Pode-se usar qualquer tipo de carta, mesmo outras de ouro, para pagar pela oferta.

Os leilões seguir-se-ão até que todas as cartas tenham sido leiloadas. Se alguma carta não receber lance algum, ela é descartada. Ao final da fase de leilão, os jogadores revelarão as cartas de recursos que acumularam durante a partida. Quem tiver o maior valor em cada um deles, marca a pontuação indicada para aquele recurso (inicialmente 3 para cada, mas isto pode variar com o uso das cartas de igreja). Em caso de empate, quem tiver a carta com a letra mais próxima de “a”, ganha a pontuação do recurso.

Ganha quem fizer mais pontos (não confundir com o valor numérico das cartas de recurso, que contam somente para ver quem marcará os pontos indicados para o recurso). Se houver empate na pontuação, vence aquele quem tiver mais ouro em mãos.

Profundidade:
Biblios não é o jogo mais denso que você encontrará, e nem tenta ser. É um filler (aquele tipo de jogo feito para quando nem todos ainda chegaram ou quando quer-se matar alguns minutos entre partidas ou ao final da noite), feito para ser rápido e entreter enquanto durar a partida e é totalmente bem-sucedido nisso. Numa partida que usualmente dura cerca de 20 minutos, tem-se uma parte de pressionar a sorte, outra de coletar cartas e dois tipos de leilão. É bastante coisa inserida num jogo tão curto, e tudo funciona sem arestas.

O que é mais inesperado é que o jogo tem sim alguma profundidade: saber quanto coletar, quando manipular a pontuação, qual quantidade ofertar e quando blefar no leilão, são algumas das escolhas e ações disponíveis. A impressão, ao final da partida, é de ter jogado algo mais “carnudo” para então perceber que tudo não durou nem meia hora. Portanto, mesmo que a curva de aprendizado pareça-se mais com uma reta do que um U, ela ainda está ali e é divertido notar que é sim possível melhorar com mais partidas, algo que não é exatamente a regra quando se trata de fillers.

Tema:
Está na arte, mas basicamente inexiste alguma relação sólida entre tema e mecânicas. É o seu típico euro (ainda que seu designer – Steve Finn – seja americano, mas é como as coisas são), em que o funcionamento do mecanismo é o que atrai o participante a gostar do jogo, enquanto o tema faz só o chamado inicial, mas não sustenta o interesse.

Mesmo assim, o tema não machuca também: eu, particularmente, gosto de saber que não estou atrás de cartas azuis, e sim de pigmentos raros para formar as cores mais chamativas, ou que cartas vermelhas são livros raros, blasfemos, escondidos de muitos e revelados a poucos. Contudo, a verdade é que há uma miríade de outras temas que poderiam ser usados sem mudar nada no jogo além da arte. E por sinal há várias versões de fãs:

Imagens por banyan & UnknownParkerBrother, respectivamente

Produção:
Razoável. O Biblios é um jogo feito em quantidades pequenas, um passo acima de algo autoral (pelo menos no padrão brasileiro, talvez nos EUA seja uma quantidade comum de jogo produzido de forma autoral). As cartas são espessas, mas a qualidade delas é ruim – elas não manteriam a forma se fossem embaralhadas daquela maneira de puxar as pontas de duas pilhas e soltá-las, porque o núcleo da carta é de qualidade inferior.

A caixa é engenhosa – funciona com imãs, sem ter uma tampa. É bonita e dá a forma de um livro à caixa. O manual é padrão: papel de boa qualidade, diagramação bem-feita e colorido. O berço do jogo não acomoda as cartas uma vez que elas recebam protetor (sleeves), mas, até aí, poucos desenhos de berço levam isso em consideração. Ao menos a caixa, uma vez que o berço seja removido, acomoda as cartas protegidas.

Vem ainda com o jogo 5 dados – nada demais, cumprem a função, mas poderiam ser mais bonitos; e um tabuleiro pequeno (uma folha colorida colada em uma base de cartolina), só para acomodar os dados e indicar quais os valores e os tipos de recursos.

A arte é boa, com apelo temático e é o ponto forte da produção. No geral, uma produção suficiente, que não se destaca, mas também não chega a incomodar demais.

Imagem por Appleseed54

Diversão:
Já me adiantei um tanto neste ponto quando escrevi sobre a profundidade, todavia vale reforçar: o Biblios é um de meus fillers preferidos – e eu conheço uma porção deles. Ele é a minha opção quando quero um jogo rápido mas que ainda tenha certo desafio, principalmente quando os envolvidos são pessoas com já certa bagagem em jogos de tabuleiro. Ele já superou o Parade, por ser mais dinâmico, e o meu outrora preferido, o Fairy Tale – no entanto, para grupos maiores e com níveis diversos de experiência, o Incan Gold e o For Sale ainda estão na frente.

Ainda estou para ver alguém não se divertir com o Biblios e a única coisa que impede ele de ser mais jogado é o limite de quatro participantes.

Vale a compra?
Sim, vale. Vá atrás, compre. Há alguns meses atrás ele era um jogo difícil de ser encontrado – e o preço estava lá nas alturas. Mas uma nova impressão saiu faz pouco tempo e agora é fácil encontrá-lo. O preço de US$ 26.95 pode assustar, e mesmo gostando bastante do jogo, acho esse valor alto, porém nas lojas on-line, usualmente você pagará menos do que isso.

Para mim o Biblios encaixa-se em um espaço ainda não muito populoso dos nichos de jogos: o filler para jogadores mais experientes (ainda que, como falei na parte da profundidade do jogo, experiência não seja exigida e é bem provável que a maioria das pessoas entenderá a dinâmica do Biblios durante ou, no máximo, ao final da primeira partida, ou, em outras palavras, em 30 minutos o “treinamento” acaba). Falo isso porque, quanto maior a quantidade de jogos que alguém conhece, usualmente o nível de exigência aumenta, mesmo quando se trata de jogos rápidos e leves. O Biblios serve bem à essa função.

E é isso!

Abs,

 
 

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